Modalidade de ensino que integra o presencial e EAD pode ganhar ainda mais espaço no mercado educacional no pós-pandemia.

O setor educacional está se movimentando intensamente neste final de 2020 para reunir os aprendizados decorrentes dos impactos da pandemia de Covid-19. A paralisação momentânea provou a capacidade de adaptação e de reinvenção dos gestores, que tiveram que reagir rapidamente para evitar e minimizar perdas e prejuízos tanto no aprendizado dos alunos quanto na saúde financeira das instituições.

Essa adaptação dos últimos meses tem sido chamada de “novo normal”, pois pode ter vindo para ficar. Apesar do desejo de muitas pessoas para que “tudo volte a ser como antes”, a tendência e o ímpeto por renovações e adaptações, que fazem parte do espírito humano, são fortes demais para serem ignorados.

O ensino híbrido na graduação se encaixa como exemplo das possíveis tendências que vieram para ficar no mercado educacional. Essa modalidade de ensino, já presente em várias faculdades do país, permite que o aluno estude de forma mista, com aulas tanto presenciais quanto em ambiente virtual.


Assista também o vídeo completo sobre a acessibilidade digital.

Números já indicam transição de demanda

Apesar de alguns relatos negativos, alunos que jamais haviam vivido uma experiência do ensino à distância se adaptaram e até perceberam mudanças positivas no seu rendimento acadêmico. Contudo, é preciso deixar claro que essa não é uma realidade para todos os alunos, mas um nicho que pode ser explorado pois há demanda no mercado.

Muito da experiência ruim vivida por estudantes no EAD vem da falta de preparo de docentes para modificar suas metodologias de aula de uma semana para a outra, da ausência de plataformas dedicadas para este fim e da falta de acesso a recursos tecnológicos (computadores e boa conexão de internet) por parte de instituições de ensino, professores e alunos.

Apenas transferir o formato “improvisado” durante a quarentena para o novo modelo de aulas oferecido pela IES pode ser um risco para a reputação. O setor educacional brasileiro tem modelos sólidos de ensino à distância e híbrido para serem usados como exemplos sérios a se seguir. Os verbos que devem guiar este momento são “observar”, “evoluir” e “transformar”.

Segundo uma pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), há uma forte tendência para que o número de matrículas em EAD seja maior do que a do modelo presencial já em 2022.

Em 2017, as matrículas no EAD tiveram um salto de 17,6% em apenas um ano. Em 2018, o Censo da Educação Superior apontou que já existiam mais vagas disponíveis para a educação à distância do que para o ensino presencial.

A pandemia e a situação instável da economia aceleraram uma transição de público, que precisa adaptar seu tempo para lidar com estudos e trabalho. Outra pesquisa, feita pelo Instituto Semesp, mostrou que 21,7% dos alunos dos cursos presenciais de graduação gostariam de migrar para o ensino híbrido após a pandemia.

Dados como estes acenderam um alerta no mercado educacional e indicam aos gestores novos caminhos possíveis para a oferta de cursos e vagas nos próximos semestres. A aplicabilidade deste modelo de negócio, contudo, deve ser estudada caso a caso.

Mudança demanda investimentos

A migração de serviços para o mundo digital é costumeiramente vista como um “corte de gastos” ou “economia” nas verbas de pessoal. Porém, pensar em uma transição de modelos que foca apenas em baixo investimento pode ser um caminho perigoso e que normalmente resulta em caos.

A reputação é um dos bens mais importantes no mercado educacional e muito difícil de conquistar, para então ser prejudicada pela má gestão de um modelo digital de negócios.

Conforme explica a líder de pós-graduação lato sensu da Unisul, professora Dra. Ana Paula Reusing Pacheco, “para se ter um ensino híbrido de qualidade é importante que as instituições invistam em tecnologia, metodologia e capacitação docente, discente e de seu pessoal administrativo”.

O sistema híbrido também não é a substituição do presencial ou um “ead flex”. Ele é uma integração entre os dois modelos combinados e que tem uma metodologia própria.

Segundo a revista Nova Escola, para que o ensino híbrido funcione corretamente, os pilares a seguir precisam estar presentes:

– Mescla de estratégias de ensino off-line com estratégias digitais;
– Personalização do ensino para atender melhor às necessidades de aprendizagem dos alunos;
– O aluno é o protagonista da sua aprendizagem;
– O papel do professor é transformado de transmissor para mediador do conhecimento;

Além da questão didática, a gestão administrativa das instituições de ensino superior também precisará se adaptar, para identificar quais serão os novos modelos de contrato, remuneração, jornada de trabalho e de integração funcional entre os profissionais (tutores, docentes etc).

Sem esse apoio técnico-institucional consolidado para docentes e alunos, o sistema pode se tornar uma grande dor de cabeça e pouco efetivo, como explica Nathalia Savione Machado, pesquisadora do tema e mestra em Educação e Novas Tecnologias.

Nova postura do aluno

Em um webinar realizado em junho de 2019, o professor Fernando de Mello Trevisani, coordenador do Grupo de Experimentações em Ensino Híbrido, comentou alguns pontos de atenção adicionais sobre o tema para incluir nessa discussão.

Para Trevisani, o segredo do modelo híbrido está baseado na formação de professores que saibam utilizar as ferramentas digitais disponíveis, aliada a uma nova postura do aluno diante do próprio aprendizado e uma grade de ensino e infraestrutura que faça sentido para essa forma de estudos.

“Os gestores devem acompanhar todo o processo, realizando avaliações e intervenções junto aos professores e alunos para construir uma cultura positiva de ensino e de aprendizagem. Quando a inovação passa a ser um projeto da instituição de ensino, os alunos, professores e gestores devem ser parceiros nesse processo. A equipe de gestão deve identificar as principais ações que promoverão mudanças significativas no ensino e na escola”, completa o professor.

Conclusão

Ainda há muito a se avaliar diante das circunstâncias que o “novo normal” impôs ao setor educacional. Gerir e aplicar novas tendências, como o ensino híbrido na graduação, exigem estudos, acompanhamento dos dados e investimento para reorganização das estruturas atuais administrativas, físicas e digitais das faculdades.

Convidamos você a continuar acompanhando estas discussões em nosso blog e a assinar nossa newsletter gratuita. Desta forma, sempre que houver novidades sobre o mercado educacional e a análise de nossos especialistas sobre o assunto, lhe enviaremos um aviso, sem spam.

Flávio Rabelo
por Flávio Rabelo